A mitigação de danos já não é suficiente para uma parcela crescente da arquitetura. Diohn do Prado, diretor administrativo, destaca a importância crescente dos materiais naturais em projetos regenerativos, nos quais cada revestimento é avaliado pelo seu impacto ambiental, pela sua durabilidade e pelo tempo de uso.
A arquitetura regenerativa amplia a lógica da construção sustentável. Enquanto o enfoque tradicional busca a redução no consumo de energia, água e matérias-primas, a abordagem regenerativa tem como objetivo fazer com que o edifício contribua positivamente para o entorno, por meio da recuperação de ecossistemas, do fortalecimento de cadeias locais e da redução de resíduos ao longo de todo o ciclo de vida.
Nesse contexto, a seleção dos materiais deixa de ser um aspecto secundário. Entenda a seguir como pedras naturais e outros materiais de baixo processamento se encaixam nesse tipo de projeto e quais critérios orientam uma especificação mais consciente.
A mudança da construção sustentável para a regenerativa
A distinção reside no horizonte de avaliação. A construção sustentável geralmente avalia a eficiência de um edifício, ou seja, sua capacidade de consumo e emissão de energia durante sua operação. A abordagem da regeneração incorpora questionamentos sobre a origem de cada componente, o impacto da extração sobre o território, o destino dos materiais ao final de sua vida útil e a relação do projeto com o clima e a paisagem locais.
Essa visão atribui valor a materiais com baixo processamento industrial. De acordo com Diohn do Prado, as pedras naturais se encaixam nessa lógica por chegarem ao local de trabalho próximas do estado em que foram encontradas na natureza, ou seja, sem passar por etapas de síntese química. No entanto, isso somente é possível se a extração for realizada de acordo com práticas responsáveis. Madeira certificada, terra crua e fibras vegetais seguem um raciocínio semelhante.
A durabilidade é um fator crucial a ser considerado. O impacto concentrado na extração e no beneficiamento de uma rocha tende a ser diluído quando a peça permanece instalada por décadas. Um revestimento que exige substituição frequente, por sua vez, implica em mais extração, transporte e descarte a cada nova troca.
Critérios para uma especificação mais consciente
Na avaliação de Diohn do Prado, a especificação regenerativa começa com perguntas que vão além da estética e do preço. Alguns critérios ajudam a orientar essa escolha:
- Procedência rastreável: saber de qual jazida ou fornecedor vem o material, se a extração tem licenciamento ambiental e se há plano de recuperação da área explorada.
- Proximidade da origem: materiais extraídos e beneficiados perto da obra reduzem o transporte, que pesa nas emissões de produtos densos como as rochas.
- Baixo processamento: quanto menos etapas industriais e aditivos, menor tende a ser a energia incorporada ao material.
- Durabilidade compatível com o uso: um material resistente só cumpre seu papel ambiental se for especificado para o ambiente certo, evitando trocas antecipadas.
- Possibilidade de desmontagem: sistemas de fixação mecânica, como os de fachadas ventiladas, permitem retirar e reaproveitar as peças em vez de demoli-las.
- Aproveitamento integral: planos de corte otimizados e destino para retalhos e resíduos finos reduzem o volume que sai da obra como entulho.

Nenhum material atende a todos esses critérios de forma absoluta. O desafio do projeto regenerativo é equilibrar origem, desempenho e destino final, reconhecendo que cada escolha envolve compensações que precisam ser avaliadas caso a caso.
Desperdício, ciclo de vida e o fim que se planeja no começo
A construção civil figura entre os principais geradores de resíduos sólidos nas cidades, com uma parcela significativa proveniente de cortes mal planejados, sobras de material e demolições. Em consonância com os princípios da arquitetura regenerativa, o descarte é concebido de forma meticulosa e estratégica desde a fase de projeto, com especificações detalhadas que delineiam o manejo de cada componente, incluindo sua manutenção, renovação ou reaproveitamento.
Ferramentas como a análise de ciclo de vida e as declarações ambientais de produto auxiliam na comparação de materiais com base em dados, considerando energia incorporada, emissões e potencial de reaproveitamento. Embora ainda não sejam amplamente difundidas em alguns segmentos, há uma tendência de que tais informações se tornem mais presentes em projetos que buscam certificações ambientais.
Diohn do Prado destaca que a renovação de superfícies em pedra natural, por meio de novo polimento ou troca de acabamento, pode prolongar sua vida útil sem exigir a substituição do material. Dessa maneira, há uma redução na necessidade de novas extrações.
Exemplos de aplicações e acabamentos em pedra natural podem ser conferidos no perfil @marmorariaagilizastone.
A manutenção está incluída na conta. A utilização de produtos neutros, a impermeabilização periódica e os reparos pontuais são essenciais para preservar o material e evitar intervenções mais invasivas, garantindo o desempenho do revestimento ao longo de décadas.
Escolhas que se medem em décadas
Em síntese, a abordagem arquitetônica regenerativa converte as especificações de materiais em diretrizes sustentáveis. A origem rastreável, o baixo processamento, a durabilidade, a desmontagem e o aproveitamento integral passam a ter o mesmo peso da estética e do custo. Diohn do Prado avalia que as pedras naturais são uma opção viável nesse cenário, desde que sejam escolhidas e aplicadas de maneira adequada, pois seu impacto ambiental depende do tempo de permanência na obra.
Esse potencial, no entanto, não é automático. A extração, o transporte e a aplicação de pedras em locais inadequados podem comprometer significativamente os benefícios que tais materiais poderiam proporcionar aos projetos.
Diohn do Prado finaliza ao notar que a informação sobre origem e aplicação adequada é fundamental para transformar um recurso natural em uma opção regenerativa. Quando projeto, fornecedor e execução compartilham o mesmo compromisso, o material deixa de ser apenas um revestimento e passa a integrar uma estratégia de longo prazo.