As fortes chuvas que atingiram Suzano e Poá reacenderam um debate recorrente no estado de São Paulo: como responder de forma rápida, eficiente e sustentável a eventos climáticos extremos que já deixaram de ser exceção. A destinação de ajuda humanitária pela Defesa Civil estadual e pelo Fundo Social surge como uma resposta emergencial necessária, mas também como um ponto de partida para reflexões mais profundas sobre prevenção, coordenação institucional e resiliência urbana. Ao longo deste artigo, analisa-se o papel da ajuda humanitária, seus impactos imediatos e os limites de uma atuação que precisa ir além do socorro pontual.
A ajuda humanitária enviada às cidades afetadas cumpre uma função essencial nos primeiros dias após o desastre. Em contextos de alagamentos, deslizamentos e perdas materiais, o apoio do Estado garante condições mínimas de dignidade à população atingida, reduz riscos sanitários e evita o agravamento de vulnerabilidades sociais já existentes. Colchões, cestas básicas, kits de higiene e itens de primeira necessidade não resolvem o problema estrutural, mas impedem que a crise se transforme em colapso social. Esse aspecto não pode ser subestimado, sobretudo em municípios densamente povoados e com áreas de ocupação irregular.
No entanto, a recorrência de episódios como o de Suzano e Poá revela que a ajuda humanitária, por mais necessária que seja, ainda opera majoritariamente de forma reativa. A cada novo evento extremo, o poder público é convocado a agir com rapidez, mobilizando estoques e recursos emergenciais. Esse modelo, embora eficaz no curto prazo, expõe fragilidades quando analisado sob a ótica da prevenção. O volume crescente de chuvas intensas indica que a emergência virou rotina, exigindo políticas permanentes e planejamento integrado entre Estado e municípios.
Do ponto de vista institucional, a atuação conjunta da Defesa Civil e do Fundo Social demonstra a importância da coordenação entre órgãos públicos. Essa integração facilita a logística, acelera a distribuição de insumos e transmite à população uma mensagem de presença do Estado em momentos críticos. Ainda assim, o desafio está em transformar essa articulação emergencial em uma estratégia contínua, capaz de antecipar riscos e reduzir danos antes que a ajuda humanitária precise ser acionada.
O contexto prático mostra que municípios como Suzano e Poá enfrentam problemas históricos relacionados à drenagem urbana, ocupação de áreas de risco e falta de infraestrutura adequada para absorver grandes volumes de chuva. Sem enfrentar essas questões estruturais, a ajuda humanitária tende a funcionar como um paliativo recorrente. A cada temporada chuvosa, repete-se o ciclo de perdas, reconstrução parcial e nova vulnerabilidade. Esse padrão gera custos financeiros elevados e desgaste social, além de afetar a confiança da população na capacidade do poder público de oferecer soluções duradouras.
Há também um aspecto social relevante que precisa ser considerado. As populações mais afetadas por enchentes e deslizamentos costumam ser as mesmas que já convivem com desigualdades no acesso a serviços públicos, moradia segura e renda. Nesse sentido, a ajuda humanitária cumpre um papel de mitigação imediata, mas não substitui políticas habitacionais, investimentos em saneamento e planejamento urbano. Sem essas ações estruturantes, o risco de naturalizar a emergência se torna real.
Do ponto de vista editorial, é preciso reconhecer o mérito da resposta rápida do Estado, mas também apontar a necessidade de avançar no debate sobre prevenção. Sistemas de alerta, mapeamento de áreas vulneráveis, obras de contenção e educação comunitária são instrumentos que reduzem significativamente a dependência de ações emergenciais. A ajuda humanitária deve ser o último recurso, não o eixo central da política pública frente às mudanças climáticas.
Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, a experiência de Suzano e Poá reforça a urgência de uma mudança de paradigma. A resposta às chuvas não pode se limitar ao envio de donativos após o desastre. É fundamental que a ajuda humanitária esteja inserida em uma estratégia mais ampla de gestão de riscos, com planejamento de longo prazo e compromisso político contínuo. Somente assim será possível transformar a reação em prevenção e garantir que o apoio emergencial cumpra seu papel sem se tornar uma solução permanente para problemas estruturais.
Autor: Francisco Zonaho