Segundo Wander Aguilera Almeida, empresário intermediador no mercado de grãos, cerca de trinta por cento dos insumos agrícolas vendidos no Brasil são pagos por meio de barter, modalidade em que o produtor entrega parte da safra futura em vez de desembolsar dinheiro logo na compra dos insumos. Ele acompanha de perto esse tipo de operação, que ganhou força justamente pela dificuldade de acesso a crédito rural tradicional nos últimos anos de mercado.
Vale entender, inicialmente, que barter não é simples escambo informal. É uma operação estruturada, com contrato formal e três partes bem definidas, cada uma com um interesse específico na negociação, do produtor à trading que fecha o ciclo. Nos próximos parágrafos, você saberá como funciona essa troca na prática e o que pode dar errado quando o produtor não avalia o risco com cuidado.
Como funciona a troca na prática?
O produtor recebe sementes, fertilizantes ou defensivos de um fornecedor, sem pagar nada no ato da entrega, e se compromete a entregar determinado volume de grãos após a colheita para quitar essa dívida assumida antes do plantio.
Wander Aguilera Almeida esclarece que existe uma terceira parte nessa relação, a fim de viabilizar o fluxo financeiro: a trading, que recebe o grão do produtor e repassa o valor correspondente ao fornecedor de insumos, fechando o ciclo da operação com segurança para todos os envolvidos.
Toda essa negociação tende a ser formalizada por meio de uma Cédula de Produto Rural, documento com validade legal que garante a entrega do grão de um lado e a entrega dos insumos do outro, protegendo ambas as partes envolvidas.
Por que essa modalidade cresceu tanto?
O barter surgiu justamente para preencher uma lacuna: o crédito rural oficial nunca foi suficiente para cobrir toda a necessidade de custeio do setor, especialmente para produtores de maior porte e safras mais caras.

Ao concretizar um barter, Wander Aguilera Almeida destaca que o produtor fixa o custo do insumo antes mesmo de realizar o plantio, evitando o risco de uma alta de preços que poderia afetar significativamente a margem de toda a safra, caso optasse por comprar mais tarde, no meio da temporada de aplicação, quando os preços estão em alta.
Para o fornecedor de insumos, essa modalidade reduz o risco de inadimplência, já que o pagamento fica atrelado diretamente à produção física, e não à capacidade financeira do produtor no momento da cobrança final.
O que pode dar errado nessa operação?
O maior risco recai sobre o produtor em caso de quebra de safra, alerta Wander Aguilera Almeida; se a colheita render menos do que o esperado, a dívida em grãos continua a mesma, e cumprir o contrato pode significar entregar praticamente toda a produção disponível.
Negociar cláusulas de revisão para cenários de perda significativa antes de assinar qualquer contrato é essencial, já que discutir isso depois do problema já instalado deixa o produtor em posição bem mais frágil.
Comparar o custo embutido no barter com o custo de financiamento tradicional também é importante, já que a praticidade da operação nem sempre significa que ela seja, de fato, mais barata no fim das contas.
Uma ferramenta útil, quando bem avaliada
O barter não é vantagem nem armadilha por definição: é uma ferramenta financeira que funciona bem quando o produtor entende exatamente o que está assinando e o risco que está assumindo em cada cláusula do contrato. Para Wander Aguilera Almeida, o essencial é tratar essa decisão com a mesma atenção dedicada a qualquer outro contrato de peso, e não apenas como um jeito rápido de resolver o custeio da safra daquele ano.