Como engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich pondera que milhares de terrenos urbanos no Brasil carregam o legado de indústrias desativadas, postos de combustível antigos e descarte irregular de resíduos. Hidrocarbonetos, solventes e outros compostos infiltrados no solo e na água subterrânea impedem o uso seguro dessas áreas e criam responsabilidade legal para seus proprietários. A biorremediação, que usa microrganismos para degradar poluentes, oferece uma alternativa à escavação e ao transporte do solo contaminado, desde que o contaminante e o terreno sejam compatíveis com o processo.
Como a biorremediação degrada os poluentes?
Bactérias e fungos presentes no solo são capazes de usar compostos orgânicos como fonte de carbono e energia. Ao metabolizá-los, convertem hidrocarbonetos, parte dos solventes e alguns pesticidas em gás carbônico, água e biomassa. O processo ocorre naturalmente, mas costuma ser lento, porque falta ao solo oxigênio, nitrogênio, fósforo ou umidade na medida certa.
A intervenção técnica consiste em corrigir essas carências. Na bioestimulação, o projeto fornece oxigênio e nutrientes aos microrganismos que já vivem no local. Na bioaumentação, culturas selecionadas são introduzidas quando a população nativa não consegue degradar o contaminante presente. A primeira opção é a mais usada, por aproveitar organismos já adaptados ao ambiente.
Aeróbia ou anaeróbia, qual via escolher?
A escolha depende do contaminante. Como observa Odair José Mannrich, compostos do grupo BTEX (benzeno, tolueno, etilbenzeno e xilenos), típicos de vazamentos em postos de combustível, degradam-se bem na presença de oxigênio, o que torna a via aeróbia a mais indicada nesses casos.
Solventes clorados, como o tricloroetileno, seguem outro caminho. Em ambiente sem oxigênio, bactérias removem os átomos de cloro um a um, em um processo chamado descloração redutiva. A etapa intermediária exige atenção, porque pode gerar cloreto de vinila, composto mais tóxico que o original. O monitoramento precisa confirmar que a reação chegou até o eteno, produto final de baixa toxicidade.

Técnicas aplicadas no próprio terreno ou fora dele
Quando o solo é tratado sem sair do lugar, a técnica recebe o nome de in situ, expressão latina para “no próprio local”. Uma das aplicações mais comuns é o bioventing, ou bioventilação, que injeta ar em baixa vazão na zona não saturada, acima do lençol freático, para fornecer oxigênio às bactérias. Se a contaminação já atingiu a água subterrânea, a opção passa a ser o biosparging, com injeção de ar abaixo do nível d’água. Em ambos os casos, dispensam-se a escavação e o transporte de grandes volumes de material.
A alternativa ex situ retira o solo do terreno e o dispõe em biopilhas, montes com tubulação de aeração, controle de umidade e cobertura para conter emissões. Odair José Mannrich indica que a opção faz sentido quando a contaminação é rasa e concentrada, ou quando o cronograma não comporta um tratamento longo no local.
Quais limites a biorremediação enfrenta?
Metais pesados não são degradados por microrganismos. Chumbo, cádmio ou cromo podem mudar de forma química e de mobilidade, mas continuam no solo, o que exige outras técnicas, como imobilização, fitorremediação ou remoção. Em áreas com contaminação mista, a biorremediação costuma resolver apenas a fração orgânica.
O tipo de solo também pesa, dado que terrenos argilosos dificultam a circulação de ar e nutrientes, em concentrações muito altas de contaminantes podem inibir os próprios microrganismos. Além disso, o processo é mais lento que a escavação e pode levar de meses a anos, prazo nem sempre compatível com a urgência de ocupar o terreno.
Monitoramento e reabilitação da área contaminada
Poços de monitoramento e sondagens periódicas medem a queda das concentrações durante o tratamento. Na leitura de Odair José Mannrich, a modelagem do fluxo da água subterrânea completa a análise, porque mostra se a pluma de contaminação está diminuindo ou apenas se deslocando para fora da área observada.
A meta é atingir os valores definidos em avaliação de risco, com base na Resolução Conama 420/2009 e nas normas estaduais. Em São Paulo, a Cetesb emite o Termo de Reabilitação para o Uso Declarado, que vincula a liberação a um uso específico, como residencial ou industrial. Uma mudança posterior de uso pode exigir nova avaliação, por isso o destino do terreno deve ser definido antes de fixar as metas de remediação.